O amor de Patch Adams

Existe certa ingenuidade quando acreditamos conhecer algo, principalmente se nossa fonte tem objetivo comercial, como um filme. A vida de uma pessoa é longa e complexa demais – independente do sujeito – para que possa ser contada integralmente dentro de algumas horas ou de algumas páginas. Às vezes, até a essência de um ser humano ou a mensagem que ele quer passar, o seu propósito de vida, ficam embaçados, distorcidos, ou mesmo são trocados por qualquer coisa que possa, aparentemente, agradar mais ao público (o que não significa que seja melhor).

“Patch Adams, o amor é contagioso” foi um filme consideravelmente popular, lançado nos anos 90. O filme se propõe a contar a história de Patch Adams, um estudante de medicina “rebelde”, excêntrico e inteligente que luta por uma prática de cuidado mais humana – muito focada no “bom humor”. Após o filme, frases como “rir é a melhor terapia” se introjetaram nos discursos da sociedade. Embora seja um filme agradável, com alguns pontos e questionamentos bastante relevantes, da qual banha-se do humor e do romance, a história do verdadeiro Patch é um pouco mais profunda do que o que vemos ali.

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Patch confessou em entrevistas que não aprovou o filme. Na verdade, por muito tempo sentiu-se envergonhado dele. “Eu sou um homem político”, diz.  A grande luta de Patch Adams não era apenas a revolução do cuidado enquanto estudante de medicina, mas uma mudança maior, social, onde as pessoas seriam capazes de pensar de modo diferente e agir de modo diferente. Sugere que se não mudarmos de uma sociedade que venera o dinheiro e o poder, para outra que venere a generosidade, não seremos capazes de realmente evoluir. Ele defende que o riso é um contexto para a saúde, mas não um remédio ou terapia. A real melhora encontra-se através da amizade, da relação, que se faz com as pessoas. É o contato humano, caloroso, cooperativo e gentil, que Patch prioriza e não apenas o bom humor e as piadas. Contudo, não acredita estar levando a cura a todas as pessoas, seu foco é a criação de vínculos. Pois, para ele, é o vínculo que fará com que as dificuldades sejam vivenciadas de forma mais leve. Adams também questiona aqueles que se vestem de palhaços para levar “felicidade” aos locais, mas que abandonam a tarefa ao despir suas fantasias. Ele acredita que ser um bom cidadão também é se propor a levar alegria a sociedade – formar vínculos – a todo e qualquer momento. Isso significa, entre outras coisas, cumprimentar, sorrir, conversar, ser gentil – e é uma tarefa que qualquer pessoa pode fazer.

O filme fez sucesso e continua fazendo, e, consequentemente, alguém lucra com esse sucesso. Essa pessoa não é Patch Adams, que diz  ter ganho sequer um dólar com essa produção. Talvez seja interessante refletirmos que as pessoas mais propostas a fazer o bem à sociedade, muitas vezes, são as menos vistas. Os filmes, as caras produções, essas são sempre procuradas e idolatradas pelas pessoas. Pergunto-me, assim como Adams, porque seguimos dando audiência a programas, a pessoas que fazem realmente tão pouco pelo avanço social, quando poderíamos estar dando esta mesma audiência e importância a pessoas, projetos e serviços que focam no amor, na humanidade e no nosso real desenvolvimento, como sociedade e como seres humanos. Nós alimentamos o funcionamento social da qual tanto criticamos. E nós somos, indiscutivelmente, a sociedade que chamamos de “ela”, excluindo todo nosso envolvimento, da qual consideramos precária, fútil e equivocada. Mas enquanto essa sociedade está assim, toda tortuosa, nós vamos assistir a novelas, futebol, compramos coisas que não precisamos ou debatemos qualidade de vida e alimentação saudável – esquecendo e ignorando aquelas pessoas que passam fome, que catam os nossos restos para sobreviver e que ficam nas bordas sociais, para que não tenhamos que enxergá-las e encarar essa realidade, que também é nossa.

Pergunto-me também quem mantém as rédeas desse “jogo”. Será que estamos pensando? Foi na mesma entrevista que ouvi Adams dizer que é através do pensamento que todas as coisas boas surgem. Nosso problema não é pensar, é o não pensar. De certa forma, invertemos valores e apenas alimentamos um funcionamento já bastante enraizado e gerador de problemas. Fazemos aquilo que querem que façamos.

Patch Adams nasceu durante a segunda guerra mundial – o que é indício sobre o que o levou a ser quem é hoje -, e foi hospitalizado, quando mais novo, três vezes na ala psiquiátrica por não querer mais viver “em um mundo com tanta violência e injustiça”. Foi na última hospitalização que encontrou um estímulo para viver, quando se viu capaz de exercer alguma mudança nessa sociedade que tanto o incomodava. Com o objetivo de servir a humanidade e de “nunca mais ter um dia ruim”, estudou bastante em busca de soluções para os problemas que via no mundo. Hoje trabalha em um instituto que busca a saúde, compreendendo-a de forma integral (saúde da família, da comunidade, da sociedade e do mundo) e se considera um ativista pela paz, pela justiça e pelo cuidado.

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Os convido a pesquisarem sobre o real Patch Adams, com intuito de refletirem e buscarem inspiração. Sem dúvidas, nossa sociedade precisa de mais Patch Adams ativistas e menos Patch Adams “ personagens de filmes de alta bilheteria”.

Vá pelo caminho inverso!

Aposto que você, leitor, neste exato momento, tem em mente alguma coisa sobre o mundo externo. Talvez você esteja preocupado ou curioso com alguma coisa que vai ou já aconteceu. Talvez você esteja pensando em alguma outra pessoa, e nas atitudes dela ou nas coisas que estão falando dela. Talvez, nesse mesmo momento em que lê este artigo, esteja, na verdade, com a mente em outro lugar. Talvez você esteja remoendo alguma coisa que quer muito falar a alguém. Uma reclamação, quem sabe? Talvez você conheça alguém que deveria melhorar, pois está causando muitos problemas ou, simplesmente, não está sendo “a melhor pessoa”.

É realmente fácil nos agarrarmos ao que está do lado de lá. Difícil mesmo é ficar aqui. Isso não seria tão banal se fossemos um pouco mais motivados a fazer o caminho inverso. Quer dizer, estamos sempre sendo estimulados a olhar o que está lá fora. As notícias, as reportagens, as revistas, a internet… E é assim que, muitas vezes, cria-se a falsa ideia de que resolvendo o material, ou o externo, nossa vida vai, como em um passe de mágica, ficar maravilhosa. Às vezes, associa-se a “infelicidade” a uma pessoa que está sendo incômoda, ou a um bem material que ainda não se adquiriu, ou a um cargo que ainda não se obteve. Embora nestas situações, quando se resolve uma coisa começa a se almejar outra… E assim a felicidade dança entra os objetivos ainda inalcançados, escorregando pelos dedos como água corrente.

Pois vou te contar um segredo, e pode ser que você não acredite nisso agora, mas: é tudo questão de foco! Se as minhas palavras não forem o suficiente, busque essa experiência. Ouse essa mudança de estratégia para a sua própria vida. Viver as experiências, senti-las e elaborá-las a partir do que ela representa para nós, é o melhor caminho para se conhecer a “verdade pessoal e íntima”.

Recentemente, estava ouvindo uma palestra e uma frase particularmente me chamou a atenção: “a vida começa da pele para dentro”. Parece simples, mas quando refletimos sobre quem somos e que tipo de funcionamento somos mais estimulados a ter, para “se ter uma boa vida” e “ser um bom cidadão”, observamos que fazemos, na maior parte do tempo, o caminho completamente oposto. Focamos e priorizamos o externo. Talvez esse seja um dos maiores exercícios e desafios dos tempos atuais: mudar de rumo e olhar para dentro de nós mesmos. Quais são as minhas reais preocupações? O que eu realmente preciso? O que significa a felicidade para mim? O tipo de vida que estou tendo, e o tipo de pessoa que sou hoje, estão me levando para o lugar que realmente desejo chegar? Qual é a minha parcela naquilo que me traz infelicidade?

O caminho para a felicidade é completamente individual. É em nosso interior, na exploração de nosso íntimo, que poderemos descobrir o que a felicidade significa para nós e como conquista-la. É possível que apenas entrando em contato com você mesmo já encontre um belo fragmento daquilo que lhe trará sossego. Embora tenhamos evoluído muito em ciência, e tenhamos desafiado a natureza com a nossa onipotente razão e inteligência, ainda nos mostramos muito frágeis por aquilo que podemos entender como auto conhecimento, e auto satisfação.

Um dado interessante é que, de uns anos para cá, os campos científicos da saúde têm dado espaço a práticas “alternativas” das quais muito se menosprezava. A meditação, por exemplo, tem trazido resultados interessantíssimos para diferentes contextos de adoecimento – psíquico, orgânico, etc. E a meditação, como bem podemos entender, é esse momento para si, é essa jornada “para dentro”.

Sejamos sinceros, somos muito limitados de poderes para que possamos mudar o outro – entretanto, gastamos muito tempo e energia pensando e julgando os demais, como se assim pudéssemos modificar determinada realidade. Deve-se ter em mente que, se realmente se busca por mudanças, pois então deveríamos começar por nós mesmos – o único ser no mundo da qual temos real poder de mudar. Pode ser que seja difícil assumir-se responsável por suas próprias atitudes, e, consequentemente, por suas próprias falhas e erros. Mas, se cada um pensasse dessa maneira, se cada um se propusesse a trabalhar em si mesmo, já teríamos uma realidade completamente diferente.

Troque o ranger dos motores por um momento, e opte pelos batimentos do seu próprio coração. Aventure-se nas maravilhas e nos mistérios de ser quem você é, e de descobrir quem você realmente é. Faça um contrato consigo mesmo, onde você trabalha duro para obter o melhor pagamento que poderia obter: a sua própria evolução. Pode ser que nesse épico instante, você encontre a felicidade, a paz e a riqueza que tanto almejou para sua vida.

Este artigo foi publicado pelo Jornal Diário Popular, no dia 12.09.2015

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Você quer apanhar?

Pensar em crianças, é pensar em seres humanos capazes, inteligentes e dispostos a aprender, porém seres humanos distintos dos adultos.  A infância representa uma fase de desenvolvimento intenso. Nesta fase, as crianças estão conhecendo o mundo e conhecendo a si mesmas, buscando sua compreensão. Esse conhecimento é adquirido através da exploração e dos sentidos, como observação. Além do mais, como todos os outros seres humanos, são seres relacionais, dependentes e também influenciados pelo ambiente afetivo em que vivem.

Como o senso crítico e a personalidade ainda estão em formação, as crianças utilizarão do seu ambiente para a obtenção de informação e de modelos a seguir, assim elas aprenderão a fazer as coisas, a falar, a se comportar e a interagir. A técnica da imitação, muito utilizada por eles, nos mostra que aquilo que fazemos na frente das crianças é mais significativo do que aquilo que falamos.

Ainda assim, educar é preciso e isso não é uma tarefa fácil. Exige dedicação, paciência e compreensão constante dos cuidadores. Mas é nesse contexto, muitas vezes por falta de informação, que surge a famosa “palmadinha”, quando não outro tipo de agressão física ou ameaça.  Você já parou para refletir o que realmente está ensinando ao seu filho com isso?

Agressão física, antes de mais nada, é um momento impulsivo, geralmente movido pela raiva ou pelo desespero, descontrole, de ter algo que você quer e impor ou expor isso ao outro fisicamente. Levando em consideração ao que foi dito anteriormente, e se você estiver transmitindo a ideia para o seu filho de que está tudo bem agredir alguém para obter aquilo que quer? Existem diversas pesquisas afirmando que a agressão física na educação infantil só traz malefícios. Já foram identificados, por exemplo, traços de agressão no comportamento infantil e deficiências no desenvolvimento cognitivo e comportamental das crianças agredidas pelos cuidadores. Quanto mais intensa a agressão dos cuidadores, maior o nível do comprometimento infantil. Lembremos, porém, que nossa mente se manifesta por níveis conscientes e inconscientes, e que também é possível que algumas consequências permaneçam em áreas de nossa mente pouco acessadas ou visíveis.

Dar uma palmada pode até fazer com que a criança pare com determinado comportamento naquele momento, mas isso é apenas uma repressão física e não um ensinamento profundo do que é certo e do que é errado. Se ainda assim não está claro, eu pergunto: Como você se sentiria se a professora ou a babá do seu filho o agredisse? Você ainda consideraria como uma prática saudável, como uma profissional capacitada para cuidá-lo?

O comportamento de testar da criança, muitas vezes, é reflexo de sua experimentação com o mundo externo. É fundamental que o cuidador não leve para o lado pessoal, como uma afronta. A partir desse teste, a criança busca entender o funcionamento do que há ao redor dela. Ela quer aprender, quer saber o que acontece. É importante que você mantenha a coerência nas suas palavras, e isso também significa ser consistente nas suas atitudes. Ela o está observando e aprendendo com você! Ser incoerente, mostrará que você quebra com a sua palavra, e a deixará confusa em relação as regras e aos limites estabelecidos.

Quando você perceber algo de errado, se questione, em primeiro lugar se o comportamento que você esperava está de acordo com a fase de desenvolvimento da criança. Em segundo lugar, pense qual é o melhor tipo de intervenção que você pode fazer, pense nas suas alternativas e opte sempre pela mais gentil e pacífica – tenha em mente que firmeza e agressividade são coisas distintas. De preferência, converse com a criança, de forma calma, clara e objetiva sobre o que acabou de acontecer. Não priorize o discurso naquilo que ela não deve fazer, mas no que ela pode fazer. Também fuja de frases que reforcem o erro ou que desmereçam a criança por algo que ela tenha feito. O fato de ela ter errado em alguma coisa não significa que seja burra ou incapaz, por exemplo. Falar isso a ela é desmerece-la como todo, o que pode gerar inseguranças futuras, sentimentos de desvalia e uma visão distorcida de si mesma.

Como citado acima, somos seres relacionais e isso significa e reflete mais na vida do seu filho do que você pode imaginar. É preciso que se tenha paciência para ensinar e explicar às crianças o que se mostra necessário. Converse e mostre o que a criança deve e pode fazer, e saiba que a educação é um processo, e é construída diariamente, tijolinho por tijolinho. A criança não tem obrigação de pensar como o adulto, mas o adulto deve, em sua condição de maior maturidade, flexibilizar-se para conversar com a criança de modo que ela possa entende-lo, possibilitando o contato destes dois mundos – adulto e infantil – de forma harmônica e construtiva. Lembre-se: gentileza gera gentileza. O amor e o carinho serão sempre as melhores ferramentas para uma educação saudável.

Este artigo foi publicado pelo Jornal Diário Popular no dia 04.09.2015

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Wall-E e a sua realidade não tão distante

Lançado pela Pixar, em 2008, o filme Wall-E fala de uma época em que a Terra está inabitada e os seres humanos, por sua vez, vivem no espaço dentro de uma grande e maravilhosa nave. No planeta Terra, além de destroços, está Wall-E, um robozinho solitário (não fosse uma barata sobrevivente, sua única companhia) que está lá para limpar e organizar a absurda quantidade de lixo deixada. Então, surge Eva, uma rôbo bem mais moderna, enviada pela nave onde habitam os seres humanos (Axion), que vai à Terra procurando algum sinal de vida.

Wall-E e o que restou da Terra
Wall-E e o que restou da Terra

Quando Eva chega a Terra logo notamos sua diferença com Wall-E. Eva é de uma tecnologia notavelmente mais atual,  sendo dotada de maiores recursos e funções, enquanto Wall-E, além de maltratado pelas condições ambientais, se mostra bem mais simplório. No entanto, Eva apresenta uma personalidade mais fria e calculista. Não demonstrando empatia por Wall-E nas primeiras vezes que o viu, e inclinando-se a destruir qualquer coisa que parecesse a ela uma ameaça. Wall-E, por outro lado, é claramente amoroso e sensível, e tenta se aproximar da nova companhia a todo custo. Aos poucos e com a convivência de Wall-E, o jeito de Eva sofre modificações. Talvez com essa simples relação possamos refletir sobre aspectos “antiquados” de nosso ser que devem ser relembrados nessa época onde obtemos um perfil considerado por muitos como “moderno, tecnológico e avançado”.

Wall-E e Eva
Wall-E e Eva

Outro aspecto interessante, é refletirmos sobre a forma como a nave, onde os seres humanos viviam, funcionava. Lá, tanto robôs quanto pessoas andavam em linhas específicas (tais como vias de trânsito). A ordem se mostrava perfeita e era fortemente afetada quando um se equivocava ou era surpreendido pelo caminho. Os robôs, como empregados da população, claramente faziam trabalhos mecanicistas, esquematizados, também negando “corpos estranhos” e buscando manter o ambiente “perfeccionista” e em ordem. Mas a realidade das pessoas não era diferente.

A população vivia em grandes cadeiras, que ora serviam de cama ou de meio de transporte. Elas simplesmente não saíam dessas cadeiras. Devido a isso, nota-se o sobrepeso (também sofreram perda da estrutura óssea devido à gravidade zero). Tudo o que tinham necessidade de fazer, como abrir um guarda-sol, era realizado pelas máquinas. Além disso, eles passavam todo o tempo em frente às telas, espécimes de computadores, que serviam também para comunicação – ou seja, passavam integralmente em “redes sociais online” para se comunicar. O caso era tão grave que tão pouco olhavam uns para os outros, mesmo quando estavam lado-a-lado. Passavam simplesmente vidrados na telinha. Obviamente, esse processo passa despercebido, negado, e durante suas conversas notamos que agem como se fossem pessoas realmente muito ativas, falando de seus compromissos e atividades. Em determinado momento, inclusive, podemos notar o funcionamento esquematizado das pessoas quando é dito a todos que “o azul é o novo vermelho” e imediatamente toda a população muda a cor da roupa, que é padronizada.

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A educação infantil também aparece sofrendo forte influência da tecnologia. Bebês são educados por uma professora-robô que utiliza de recurso uma grande tela onde passa o abecedário – é interessante perceber a expressão vidrada das crianças nesta cena, semelhantes a estudos já realizados com crianças reais em frente à televisão.

Quando acidentalmente uma personagem (Mary) desvia o olhar de sua tela, percebe o universo à sua volta e se surpreende. Em determinado momento ela diz: “Uau, eu não sabia que tínhamos uma piscina! ”. Olha cada coisa com espanto, pois, embora aquele tivera sido seu ambiente desde sempre (afinal, ela não tinha mais para onde ir), vivia, na realidade, em num mundo virtual.   Wall-E (o “antiquado e amoroso”) ocasiona esses momentos de “desencantamento virtual” onde algumas personagens vão, pouco a pouco, “voltando à vida”. Inclusive, é a partir desta oportunidade que Mary e John começam a interagir fora da realidade virtual.  Essa interação torna-se engraçada pois são os únicos, até parte do filme, que estão interagindo fora das telinhas. Mary e John estavam tomando as rédeas de suas próprias vidas e indo contra os sistemas estabelecidos na nave.

As situações envolvendo o capitão também são bastante ricas em simbologias. O hábito de receber tudo pronto das máquinas, que conversavam com as pessoas dando-lhes todas as respostas necessárias, mostrou a deterioração do hábito da leitura. Quando o capitão pega o manual para ler, mostra-se atrapalhado e, como se o livro fosse uma pessoa, diz à ele: “Manuel,  transmita as instruções!”.

O capitão
O capitão

Mas a principal questão envolvendo o capitão da Axion é sua relação com a máquina. Em determinado momento do enredo, algumas máquinas tramam contra o capitão, pois querem evitar que sua vontade seja feita. Mostrando obter vontade própria, e também dando a entender que conseguiram persuadir os capitães anteriores, levanta-se a questão sob a verdadeira relação de poder. Quem domina quem? Os humanos dominam as máquinas ou vice-versa?

A animação Wall-E é um prato cheio para refletirmos sobre a nossa realidade atual, sendo desnecessário projetar isso para anos futuros. Acredito que seja fácil e possível associar os tópicos citados à nossa relação com a tecnologia, com o meio ambiente, e com os demais. Já é possível visualizar que as pessoas passam “vidradas” em suas telinhas, muitas vezes esquivando-se das relações “reais”. Estamos inclusos em um sistema exigente, onde precisamos ser cada vez melhores e mais qualificados. Passamos a maior parte de nossas vidas sentados estudando ou trabalhando, cumprindo tarefas que são, em sua maioria, intelectuais, mas fisicamente ociosas.  Se refletirmos profundamente em nossas funções dentro deste sistema, concluiremos o quão mecanicamente estamos vivendo nossas vidas. Até que ponto estamos explorando e investindo em nossa relação com o ambiente e com os nossos iguais?

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Em meio à tantos destroços, à tanto lixo, ainda pode existir uma pequena plantinha, que, persistente, transformará-se em um ponto de vida e de esperança em meio ao vazio. Só é necessário que a veja, e decida o que fazer com ela. Pode-se cuidá-la ou ignorá-la. Talvez para todo fim, surja um novo começo. É a sua escolha que decidirá.

Este artigo foi publicado pelo jornal Diário Popular no dia 26.08.2015

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Divertida Mente e a psicologia

 “Divertida Mente” é uma animação produzida pela Pixar, recentemente lançada, e conta a história de uma garota chamada Riley, desde seu nascimento – e do surgimento das suas emoções – até os seus onze anos, onde passará por algumas mudanças em sua vida que ocasionarão um grande conflito em sua mente.

Durante o filme, pode-se acompanhar a mente de Riley que é representada por algumas personagens excêntricas como Alegria, Tristeza, Nojinho, Medo e Raiva. Cada uma, claramente, representa uma emoção e tem uma função específica para a sobrevivência e o desenvolvimento da garota. Por exemplo, a função do Medo é proteger Riley contra danos físicos e psíquicos. O cenário principal é  uma grande sala de controle (que representa a mente de Riley), onde cada emoção – em seu devido momento – lidera as ações, sensações e pensamentos da garota. Além do mais, é nesta sala que certos globos de memória aparecem, também influenciados pela cor de cada emoção que os envolveu. Dentre estas memórias, existem as memórias bases, a partir delas nasceram espécies de ilhas onde estão as principais características de Riley, das quais moldam a sua personalidade, são as ilhas da família, do hóquei, da bobeira, da honestidade e da amizade.

Raiva, Medo, Alegria, Nojinho e Tristeza
Raiva, Medo, Alegria, Nojinho e Tristeza.

Mas qual a relação de Divertida Mente com a psicologia?

Para começar, é bastante claro que possuímos todas as emoções citadas na animação. A escolha destas personagens foi feita após estudo de algumas pesquisas que descreviam as principais emoções – e também as que eram mundialmente conhecidas. Tanto estas quanto as demais emoções que possuímos influenciam a nossa vida – em como reagimos às coisas, como nos relacionamos com os demais, como pensamos e nos sentimos. Quando estamos com raiva, por exemplo, podemos agir de forma impulsiva e explosiva.

Também podemos pensar em nossas próprias lembranças. Inclusive, o filme é bem rico neste aspecto. Enquanto nossas lembranças também são influenciadas pelas principais emoções relacionadas à elas, nossas lembranças base – talvez possamos associá-las às coisas mais marcantes ou significativas que vivemos – irão moldar a nossa personalidade e definir nossas principais características… Como agimos com a família? Que tipo de amigos somos? Entre outros aspectos.

Ainda sobre as memórias, na “sala de controle” da mente de Riley surgiam as memórias de curto prazo que, ao final do dia, eram transportadas para a grande biblioteca de memórias – onde permaneciam as memórias de longo prazo. Dentro desta biblioteca outras personagens tinham a função de determinar quais dessas memórias de longo prazo eram dispensáveis e então apaga-las para sempre.  Inclusive, uma das falas mais interessantes do filme é dita nesta parte, quando um dos “limpadores de memória” diz algo como: “Ah, isso já está no celular, vamos apagar!”.

Biblioteca de memórias
Biblioteca de memórias

Um importante ponto citado no filme é a relação da Tristeza e da Alegria. A Alegria é a personagem mais ativa e presente, que controla a mente de Riley a maior parte do tempo. Porém, a Tristeza, pouco a pouco, tenta aproximar-se das memórias e ações de Riley, sendo considerada inconveniente pela Alegria – que busca afastá-la da mesa de controle de todas as formas possíveis.

É muito comum, contudo, que as pessoas façam um grande esforço para ignorar ou fugir da própria tristeza, optando por mascará-la. Ao decorrer do filme, a importância da tristeza é trazida à tona, quando, para diversas situações, a Alegria percebe que é incapaz de encontrar soluções sozinha. Um exemplo disto é que, durante o filme, o amigo imaginário de Riley, Bing Bong, está muito triste e a Alegria tenta fazê-lo esquecer de seu sofrimento. Diz a ele frases motivacionais, descontraídas, e mesmo assim Bing Bong fica desanimado. Quando a Tristeza se aproxima do amigo para ouvi-lo, demonstrando empatia por seu sofrimento, ele consegue se sentir bem novamente. Alegria, curiosa, pergunta pra Tristeza o que ela fez, e ela responde: “Ele estava triste, então eu escutei”.

Bing Bong, Tristeza e Alegria
Bing Bong, Tristeza e Alegria

Divertida Mente é mais uma animação rica em simbologias e conteúdos. Trata aspectos do nosso psiquismo de forma leve e bem humorada, e possibilita-nos a reflexão da influência dele sobre nós – onde algumas de nossas ações são lideradas por coisas que desconhecemos, que estão em nosso inconsciente. Também auxilia-nos a compreensão das próprias emoções e da importância da todas elas. Enganam-se aqueles que ainda acreditam que se deve apenas valorizar a Alegria, pois a Tristeza também tem um papel importante em nosso desenvolvimento – a meta deve ser sempre o equilíbrio de nossas emoções, buscando entender o que cada uma representa, como pode nos auxiliar e até mesmo o que pode indicar em relação ao nosso cotidiano e ao nosso contexto.

Para mais informações sobre a animação, confira a entrevista que o blogueiro Rodrigo Fernandes fez com Pete Docter, o diretor de Divertida Mente, clique aqui.

Este texto foi publicado no Jornal Diário Popular no dia 17.08.2015

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Uma vida de Sísifo ou uma vida diferente?

Para quem não sabe, o mito de Sísifo fala, resumidamente, sobre um homem reconhecido por sua astúcia. Ao decorrer da história, percebe-se claramente que ele utiliza de sua esperteza para desviar-se de punições, para beneficiar-se de pessoas e situações da qual passa. Por fim, ele tenta escapar da morte. Após persuadir e enganar pessoas e até mesmo deuses, Sísifo sofre uma punição: ele teria que empurrar uma enorme pedra morro acima, mas ao chegar lá a pedra cairia novamente e assim o ciclo se repetiria por “toda a eternidade”.

Focando no final da história, indago-me quantas pessoas, neste exato momento, estão vivendo como Sísifo. Punindo a si mesmas inconscientemente, onde são frutos de uma vida de repetições, que pouco pode evoluir. Arrastando os mesmos problemas do passado, alimentando as mesmas brigas, desejando apenas as coisas mais difíceis e desvalorizando aquilo que poderia dar-lhes um pouco de felicidade. Indago-me quantas pessoas, nesse exato momento, estão burlando a si mesmas, estão fugindo da importante missão de ouvirem a si mesmas, de encararem a própria vida e suas consequências e, como resultado disso, estão carregando algumas pesadas “pedras” morro acima.

Vivemos, sim, numa vida cheia de rotinas, uma vida até certo ponto mecanicista e que muitas vezes evita ou impede um olhar diferente para o que há ao redor. Mas quando falamos de nós mesmos (de nossa saúde mental, qualidade de vida, bem-estar e até mesmo auto estima) devemos utilizar um outro olhar. Estes mecanismos de repetição, citados acima, são frutos de nosso inconsciente – tão astuto quanto Sísifo -, mas é possível que alguns aspectos “nebulosos” venham à luz quando se busca a reflexão de nossas vidas. Este momento de parar para refletir, para autoconhecer-se, para reavaliar-se, é fundamental para aqueles que não pretendem acompanhar Sísifo em seu destino.

A rotina de trabalho pode ser cansativa, mas a convivência com nós mesmos precisa ser leve. Entrar em contato com aquilo que fazemos e somos é o caminho para modificar o nosso contexto – dos quais, muitas vezes, também é gerador de cansaço e esgotamento. Compreender aquilo que se repete de forma improdutiva, e o motivo pelo qual isso acontece, auxilia-nos a viver inovações. Não necessariamente este caminho seja fácil ou simples, mas cabe refletir qual é o tipo de vida que se deseja viver. Uma vida de Sísifo ou uma vida diferente? Para finalizar, cito uma frase de Jung que é de válida reflexão: “O que não enfrentamos em nós mesmos, encontraremos como destino”.