Uma reflexão sobre a animação “Cada um na sua casa”

Recentemente, assisti uma animação da DreamWorks chamada Cada um na sua casa. A história conta, resumidamente, sobre a raça Boovs, que são “simpáticos extraterrestres” conhecidos por serem bons de fuga, pois passam grande parte de seu tempo fugindo da terrível raça Gorgon. Em uma destas fugas, eles vêm para a Terra, em busca de refúgio. Raptando pessoas e construindo uma “nova realidade” para a raça humana. No meio do enredo, “Oh!”, um extraterrestre excluído, encontra-se com Tip, uma humana solitária que perdeu-se da mãe durante a invasão dos Boovs.

Embora seja um filme infantil, Cada um na sua casa pode ser facilmente interpretado, tamanha a quantidade de simbologias encontradas na história e acredito que seja válido citar algumas. A respeito da própria raça Boov certo aspecto chamou-me a atenção, é uma raça de fugitivos, orientada por um líder que, embora inseguro de si mesmo, convence a massa através de suas histórias. Os Boovs reconhecem-se como inimigos, melhor dizendo vítimas, da raça Gorgon, que os segue durante muito tempo. Mas o desenrolar do filme mostra que, na verdade, a vítima era outra, pois o líder dos Boovs havia roubado algo precioso dos Gorgons, e por isso era seguido. A aparência do “vilão” também sofre modificações durante o decorrer da história, onde, de uma aparência agressiva e amedrontadora, é possível visualizar uma simpática e inofensiva criatura.

Além do mais, “Oh!”, como extraterrestre excluído, passa grande parte de seu tempo buscando atenção e ligação com seus iguais, ele quer experimentar uma relação de amizade verdadeira. Porém, os Boovs o ignoram, tanto por não acreditarem que é uma atitude correta, para sua raça, esse tipo de relação, quanto por não aceitarem as particularidades de Oh!. Quando ele se encontra com Tip, é que começa a compreender as regras que um relacionamento exige, como respeito, sinceridade e fidelidade. Além do mais, ele passa a conhecer a si mesmo e as suas capacidades. Cria coragem para experimentar atitudes novas, antes compreendidas como errôneas pelo seu contexto social, e redescobre e reconstrói sua própria identidade. A partir de sua mudança passa de foragido à líder e transforma toda a sociedade Boov – que passa, aos poucos, a trilhar os mesmos caminhos de autoconhecimento, a ter coragem e a se aventurar em relações mais íntimas com os outros – através de seu exemplo.

A história do filme nos dá margem para falar de diferentes assuntos muito abordados por psicólogos e nas psicoterapias como, por exemplo, o quanto podemos nos vitimizar e fugir das situações, quando, muitas vezes, possuímos nossa parcela de culpa e podemos estar mais equivocados do que aqueles que julgamos como “vilões”; o quão importante é encarar os nossos problemas, ao invés de fugir deles, e o quanto podemos crescer e aprender com isso. Também podemos pensar o quanto, muitas vezes, seguimos normas ou nos agarramos a certas crenças que nos tornam frios e maquinistas, deixando de lado relações sinceras que irão nos enriquecer com crescimento pessoal. Outro aspecto que julgo ser bastante interessante é que é através de nossas mudanças pessoais que podemos modificar o que há ao nosso redor.

Aconselho a assistirem esse filme, refletirem sobre ele e chegarem aos seus próprios questionamentos ou conclusões. As obras infanto-juvenis são, muitas vezes, recheadas de mensagens importantes que deixamos para trás, e Cada um na sua casa é uma delas.

Texto publicado no Jornal Diário Popular (clique aqui)

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