O amor de Patch Adams

Existe certa ingenuidade quando acreditamos conhecer algo, principalmente se nossa fonte tem objetivo comercial, como um filme. A vida de uma pessoa é longa e complexa demais – independente do sujeito – para que possa ser contada integralmente dentro de algumas horas ou de algumas páginas. Às vezes, até a essência de um ser humano ou a mensagem que ele quer passar, o seu propósito de vida, ficam embaçados, distorcidos, ou mesmo são trocados por qualquer coisa que possa, aparentemente, agradar mais ao público (o que não significa que seja melhor).

“Patch Adams, o amor é contagioso” foi um filme consideravelmente popular, lançado nos anos 90. O filme se propõe a contar a história de Patch Adams, um estudante de medicina “rebelde”, excêntrico e inteligente que luta por uma prática de cuidado mais humana – muito focada no “bom humor”. Após o filme, frases como “rir é a melhor terapia” se introjetaram nos discursos da sociedade. Embora seja um filme agradável, com alguns pontos e questionamentos bastante relevantes, da qual banha-se do humor e do romance, a história do verdadeiro Patch é um pouco mais profunda do que o que vemos ali.

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Patch confessou em entrevistas que não aprovou o filme. Na verdade, por muito tempo sentiu-se envergonhado dele. “Eu sou um homem político”, diz.  A grande luta de Patch Adams não era apenas a revolução do cuidado enquanto estudante de medicina, mas uma mudança maior, social, onde as pessoas seriam capazes de pensar de modo diferente e agir de modo diferente. Sugere que se não mudarmos de uma sociedade que venera o dinheiro e o poder, para outra que venere a generosidade, não seremos capazes de realmente evoluir. Ele defende que o riso é um contexto para a saúde, mas não um remédio ou terapia. A real melhora encontra-se através da amizade, da relação, que se faz com as pessoas. É o contato humano, caloroso, cooperativo e gentil, que Patch prioriza e não apenas o bom humor e as piadas. Contudo, não acredita estar levando a cura a todas as pessoas, seu foco é a criação de vínculos. Pois, para ele, é o vínculo que fará com que as dificuldades sejam vivenciadas de forma mais leve. Adams também questiona aqueles que se vestem de palhaços para levar “felicidade” aos locais, mas que abandonam a tarefa ao despir suas fantasias. Ele acredita que ser um bom cidadão também é se propor a levar alegria a sociedade – formar vínculos – a todo e qualquer momento. Isso significa, entre outras coisas, cumprimentar, sorrir, conversar, ser gentil – e é uma tarefa que qualquer pessoa pode fazer.

O filme fez sucesso e continua fazendo, e, consequentemente, alguém lucra com esse sucesso. Essa pessoa não é Patch Adams, que diz  ter ganho sequer um dólar com essa produção. Talvez seja interessante refletirmos que as pessoas mais propostas a fazer o bem à sociedade, muitas vezes, são as menos vistas. Os filmes, as caras produções, essas são sempre procuradas e idolatradas pelas pessoas. Pergunto-me, assim como Adams, porque seguimos dando audiência a programas, a pessoas que fazem realmente tão pouco pelo avanço social, quando poderíamos estar dando esta mesma audiência e importância a pessoas, projetos e serviços que focam no amor, na humanidade e no nosso real desenvolvimento, como sociedade e como seres humanos. Nós alimentamos o funcionamento social da qual tanto criticamos. E nós somos, indiscutivelmente, a sociedade que chamamos de “ela”, excluindo todo nosso envolvimento, da qual consideramos precária, fútil e equivocada. Mas enquanto essa sociedade está assim, toda tortuosa, nós vamos assistir a novelas, futebol, compramos coisas que não precisamos ou debatemos qualidade de vida e alimentação saudável – esquecendo e ignorando aquelas pessoas que passam fome, que catam os nossos restos para sobreviver e que ficam nas bordas sociais, para que não tenhamos que enxergá-las e encarar essa realidade, que também é nossa.

Pergunto-me também quem mantém as rédeas desse “jogo”. Será que estamos pensando? Foi na mesma entrevista que ouvi Adams dizer que é através do pensamento que todas as coisas boas surgem. Nosso problema não é pensar, é o não pensar. De certa forma, invertemos valores e apenas alimentamos um funcionamento já bastante enraizado e gerador de problemas. Fazemos aquilo que querem que façamos.

Patch Adams nasceu durante a segunda guerra mundial – o que é indício sobre o que o levou a ser quem é hoje -, e foi hospitalizado, quando mais novo, três vezes na ala psiquiátrica por não querer mais viver “em um mundo com tanta violência e injustiça”. Foi na última hospitalização que encontrou um estímulo para viver, quando se viu capaz de exercer alguma mudança nessa sociedade que tanto o incomodava. Com o objetivo de servir a humanidade e de “nunca mais ter um dia ruim”, estudou bastante em busca de soluções para os problemas que via no mundo. Hoje trabalha em um instituto que busca a saúde, compreendendo-a de forma integral (saúde da família, da comunidade, da sociedade e do mundo) e se considera um ativista pela paz, pela justiça e pelo cuidado.

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Os convido a pesquisarem sobre o real Patch Adams, com intuito de refletirem e buscarem inspiração. Sem dúvidas, nossa sociedade precisa de mais Patch Adams ativistas e menos Patch Adams “ personagens de filmes de alta bilheteria”.

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Vá pelo caminho inverso!

Aposto que você, leitor, neste exato momento, tem em mente alguma coisa sobre o mundo externo. Talvez você esteja preocupado ou curioso com alguma coisa que vai ou já aconteceu. Talvez você esteja pensando em alguma outra pessoa, e nas atitudes dela ou nas coisas que estão falando dela. Talvez, nesse mesmo momento em que lê este artigo, esteja, na verdade, com a mente em outro lugar. Talvez você esteja remoendo alguma coisa que quer muito falar a alguém. Uma reclamação, quem sabe? Talvez você conheça alguém que deveria melhorar, pois está causando muitos problemas ou, simplesmente, não está sendo “a melhor pessoa”.

É realmente fácil nos agarrarmos ao que está do lado de lá. Difícil mesmo é ficar aqui. Isso não seria tão banal se fossemos um pouco mais motivados a fazer o caminho inverso. Quer dizer, estamos sempre sendo estimulados a olhar o que está lá fora. As notícias, as reportagens, as revistas, a internet… E é assim que, muitas vezes, cria-se a falsa ideia de que resolvendo o material, ou o externo, nossa vida vai, como em um passe de mágica, ficar maravilhosa. Às vezes, associa-se a “infelicidade” a uma pessoa que está sendo incômoda, ou a um bem material que ainda não se adquiriu, ou a um cargo que ainda não se obteve. Embora nestas situações, quando se resolve uma coisa começa a se almejar outra… E assim a felicidade dança entra os objetivos ainda inalcançados, escorregando pelos dedos como água corrente.

Pois vou te contar um segredo, e pode ser que você não acredite nisso agora, mas: é tudo questão de foco! Se as minhas palavras não forem o suficiente, busque essa experiência. Ouse essa mudança de estratégia para a sua própria vida. Viver as experiências, senti-las e elaborá-las a partir do que ela representa para nós, é o melhor caminho para se conhecer a “verdade pessoal e íntima”.

Recentemente, estava ouvindo uma palestra e uma frase particularmente me chamou a atenção: “a vida começa da pele para dentro”. Parece simples, mas quando refletimos sobre quem somos e que tipo de funcionamento somos mais estimulados a ter, para “se ter uma boa vida” e “ser um bom cidadão”, observamos que fazemos, na maior parte do tempo, o caminho completamente oposto. Focamos e priorizamos o externo. Talvez esse seja um dos maiores exercícios e desafios dos tempos atuais: mudar de rumo e olhar para dentro de nós mesmos. Quais são as minhas reais preocupações? O que eu realmente preciso? O que significa a felicidade para mim? O tipo de vida que estou tendo, e o tipo de pessoa que sou hoje, estão me levando para o lugar que realmente desejo chegar? Qual é a minha parcela naquilo que me traz infelicidade?

O caminho para a felicidade é completamente individual. É em nosso interior, na exploração de nosso íntimo, que poderemos descobrir o que a felicidade significa para nós e como conquista-la. É possível que apenas entrando em contato com você mesmo já encontre um belo fragmento daquilo que lhe trará sossego. Embora tenhamos evoluído muito em ciência, e tenhamos desafiado a natureza com a nossa onipotente razão e inteligência, ainda nos mostramos muito frágeis por aquilo que podemos entender como auto conhecimento, e auto satisfação.

Um dado interessante é que, de uns anos para cá, os campos científicos da saúde têm dado espaço a práticas “alternativas” das quais muito se menosprezava. A meditação, por exemplo, tem trazido resultados interessantíssimos para diferentes contextos de adoecimento – psíquico, orgânico, etc. E a meditação, como bem podemos entender, é esse momento para si, é essa jornada “para dentro”.

Sejamos sinceros, somos muito limitados de poderes para que possamos mudar o outro – entretanto, gastamos muito tempo e energia pensando e julgando os demais, como se assim pudéssemos modificar determinada realidade. Deve-se ter em mente que, se realmente se busca por mudanças, pois então deveríamos começar por nós mesmos – o único ser no mundo da qual temos real poder de mudar. Pode ser que seja difícil assumir-se responsável por suas próprias atitudes, e, consequentemente, por suas próprias falhas e erros. Mas, se cada um pensasse dessa maneira, se cada um se propusesse a trabalhar em si mesmo, já teríamos uma realidade completamente diferente.

Troque o ranger dos motores por um momento, e opte pelos batimentos do seu próprio coração. Aventure-se nas maravilhas e nos mistérios de ser quem você é, e de descobrir quem você realmente é. Faça um contrato consigo mesmo, onde você trabalha duro para obter o melhor pagamento que poderia obter: a sua própria evolução. Pode ser que nesse épico instante, você encontre a felicidade, a paz e a riqueza que tanto almejou para sua vida.

Este artigo foi publicado pelo Jornal Diário Popular, no dia 12.09.2015

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Você quer apanhar?

Pensar em crianças, é pensar em seres humanos capazes, inteligentes e dispostos a aprender, porém seres humanos distintos dos adultos.  A infância representa uma fase de desenvolvimento intenso. Nesta fase, as crianças estão conhecendo o mundo e conhecendo a si mesmas, buscando sua compreensão. Esse conhecimento é adquirido através da exploração e dos sentidos, como observação. Além do mais, como todos os outros seres humanos, são seres relacionais, dependentes e também influenciados pelo ambiente afetivo em que vivem.

Como o senso crítico e a personalidade ainda estão em formação, as crianças utilizarão do seu ambiente para a obtenção de informação e de modelos a seguir, assim elas aprenderão a fazer as coisas, a falar, a se comportar e a interagir. A técnica da imitação, muito utilizada por eles, nos mostra que aquilo que fazemos na frente das crianças é mais significativo do que aquilo que falamos.

Ainda assim, educar é preciso e isso não é uma tarefa fácil. Exige dedicação, paciência e compreensão constante dos cuidadores. Mas é nesse contexto, muitas vezes por falta de informação, que surge a famosa “palmadinha”, quando não outro tipo de agressão física ou ameaça.  Você já parou para refletir o que realmente está ensinando ao seu filho com isso?

Agressão física, antes de mais nada, é um momento impulsivo, geralmente movido pela raiva ou pelo desespero, descontrole, de ter algo que você quer e impor ou expor isso ao outro fisicamente. Levando em consideração ao que foi dito anteriormente, e se você estiver transmitindo a ideia para o seu filho de que está tudo bem agredir alguém para obter aquilo que quer? Existem diversas pesquisas afirmando que a agressão física na educação infantil só traz malefícios. Já foram identificados, por exemplo, traços de agressão no comportamento infantil e deficiências no desenvolvimento cognitivo e comportamental das crianças agredidas pelos cuidadores. Quanto mais intensa a agressão dos cuidadores, maior o nível do comprometimento infantil. Lembremos, porém, que nossa mente se manifesta por níveis conscientes e inconscientes, e que também é possível que algumas consequências permaneçam em áreas de nossa mente pouco acessadas ou visíveis.

Dar uma palmada pode até fazer com que a criança pare com determinado comportamento naquele momento, mas isso é apenas uma repressão física e não um ensinamento profundo do que é certo e do que é errado. Se ainda assim não está claro, eu pergunto: Como você se sentiria se a professora ou a babá do seu filho o agredisse? Você ainda consideraria como uma prática saudável, como uma profissional capacitada para cuidá-lo?

O comportamento de testar da criança, muitas vezes, é reflexo de sua experimentação com o mundo externo. É fundamental que o cuidador não leve para o lado pessoal, como uma afronta. A partir desse teste, a criança busca entender o funcionamento do que há ao redor dela. Ela quer aprender, quer saber o que acontece. É importante que você mantenha a coerência nas suas palavras, e isso também significa ser consistente nas suas atitudes. Ela o está observando e aprendendo com você! Ser incoerente, mostrará que você quebra com a sua palavra, e a deixará confusa em relação as regras e aos limites estabelecidos.

Quando você perceber algo de errado, se questione, em primeiro lugar se o comportamento que você esperava está de acordo com a fase de desenvolvimento da criança. Em segundo lugar, pense qual é o melhor tipo de intervenção que você pode fazer, pense nas suas alternativas e opte sempre pela mais gentil e pacífica – tenha em mente que firmeza e agressividade são coisas distintas. De preferência, converse com a criança, de forma calma, clara e objetiva sobre o que acabou de acontecer. Não priorize o discurso naquilo que ela não deve fazer, mas no que ela pode fazer. Também fuja de frases que reforcem o erro ou que desmereçam a criança por algo que ela tenha feito. O fato de ela ter errado em alguma coisa não significa que seja burra ou incapaz, por exemplo. Falar isso a ela é desmerece-la como todo, o que pode gerar inseguranças futuras, sentimentos de desvalia e uma visão distorcida de si mesma.

Como citado acima, somos seres relacionais e isso significa e reflete mais na vida do seu filho do que você pode imaginar. É preciso que se tenha paciência para ensinar e explicar às crianças o que se mostra necessário. Converse e mostre o que a criança deve e pode fazer, e saiba que a educação é um processo, e é construída diariamente, tijolinho por tijolinho. A criança não tem obrigação de pensar como o adulto, mas o adulto deve, em sua condição de maior maturidade, flexibilizar-se para conversar com a criança de modo que ela possa entende-lo, possibilitando o contato destes dois mundos – adulto e infantil – de forma harmônica e construtiva. Lembre-se: gentileza gera gentileza. O amor e o carinho serão sempre as melhores ferramentas para uma educação saudável.

Este artigo foi publicado pelo Jornal Diário Popular no dia 04.09.2015

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